Como talvez possas saber, estou há várias semanas a trabalhar na estrutura de um círculo de mulheres online que vou facilitar já este Domingo, dia 7 de Setembro com a minha querida Irmã Vanessa Vale. Tem como título: “Hécate em Mim: assumo a minha Verdade” e tem me trazido várias reflexões bem profundas sobre alguns temas arquetípicos que Hécate carrega e nos obriga a vislumbrar, enxergar, olhar de frente.
Um deles, é o arquétipo da bruxa, da curandeira, e do medo que ainda vibra na nossa psique das fogueiras.
Bruxas, fogueiras e memórias
Um dos livros que me acompanhou nas férias foi por isso “As Deusas da Mulher Madura” de Jean Shinoda Bolen (2001).
Nele, Hécate surge como arquétipo da Mulher Sábia — e Shinoda lembra-nos porque tantas ainda hoje temem ser chamadas de bruxas:
“As mulheres receiam ser chamadas de bruxas por boas razões históricas. A Inquisição foi instaurada em 1252 pelo Papa Inocêncio *(repara na fina ironia) , e aplicou a tortura como sanção durante mais 5 séculos e meio (sim, são 550 anos), até ser abolida pelo Papa Pío VII em 1816. Entre 1560 e 1760, a perseguição das mulheres encontrava-se no auge. As feministas chamaram a esse período “o holocausto da Mulher”, sendo que o número estimado de Mulheres condenadas à fogueira oscila entre as 100.000 e os 8 milhões.” (1)
As primeiras a serem perseguidas?
As parteiras e curandeiras — aquelas que sabiam aliviar dores de parto, trabalhar com ervas, trazer bebês ao mundo.”Essas anciãs que aliviaram as dores de parto e ajudavam os filhos a nascer, que sabiam de herbalismo (de onde nasceu a atual medicina) e cujos poderes advinham da observação e da experiência. As mulheres com autoridade, independência ou conhecimentos, as mulheres excêntricas ou donas de propriedades geralmente viúvas) também eram denunciadas, torturadas para confessar e condenadas” (1)
O retrocesso dos nossos direitos
Estamos a viver HOJE de forma inequívoca um retrocesso profundo nos direitos das Mulheres em locais que eram considerados bastiões da Democracia.
👉 Nos Estados Unidos, de forma bem óbvia
👉 Em Portugal, também. Já notaste?
Em Portugal sim, naquele que era um dos países da Europa com menor taxa de mortalidade infantil e materna, hoje:
- Voltamos a parir com dor e medo por falhas inconcebíveis de instituições que dávamos por garantidas (que paradoxo num país em que o papel das doulas é ainda ridicularizado)
- Engravidar voltou a tornar-se um risco;
- O direito à IVG existe na lei, mas não na prática em todo o território, tenta lá conseguir assistência nos Açores por exemplo (2).
Repara como estamos a voltar ao antigamente: ao medo de sermos espancadas, de morrermos num parto, de morrermos a interromper uma gravidez.
E mais: estamos a ser empurradas umas contra as outras, sustentando um modelo antinatural para a psique feminina: submissão, intolerância à diferença, domesticação dos corpos e vozes. Recordando-nos o medo de sermos denunciadas umas pelas outras. O medo de falarmos. De nós posicionarmos. Um modelo que só serve um propósito: a manutenção do Status Quo com o Patriarcado a puxar os cordelinhos.
Porque importa em 2025?
A relevância deste tema é clara: o nosso poder está a ser atacado.
Não o poder de dominar alguém.
Mas o poder de decidir sobre o próprio corpo, a liberdade e o livre-arbítrio.
Não é hora de calar, Irmã.
Não é hora de ser neutra.
A História escrita pelo Patriarcado ameaça repetir-se — e os sinais estão todos aí para quem ainda tiver a capacidade de os ver.
“Para sobreviver, as mulheres precisavam passar despercebidas e mostrar-se medíocres.” — Jean Shinoda Bolen (1)
Não sei se queres isso para ti, para a tua mãe, irmã, amiga, filha, sobrinha, neta ou bisneta. Eu cá sei que me recuso e lutarei com todas as minhas forças.
A força do círculo
Sabias que o movimento que deu às Mulheres o direito ao voto nos EUA nasceu de um círculo de Mulheres?
As palavras de Margaret Mead, uma das 5 (sim 5) mulheres que escreveram a Declaração dos Direitos das Mulheres em 1848 ecoam forte em 2025:
“Nunca duvides do poder de mudar o mundo de um grupo de pessoas comprometidas. Em realidade, é a única coisa que funciona.” (1)
Se sentires de aprofundar estas temáticas, deixo alguns recursos adicionais:
Agir para a Mudança: assume a tua Voz e a tua Verdade
“Bruxaria sem política é só estética. E a estética sem memória é só ilusão vestida de neutralidade.
Para uma sociedade que tem sido dominada pelo patriarcado nos últimos dois mil anos, a ênfase ao Sagrado Feminino não é modismo — é reparação simbólica.
A bruxaria, em sua raiz, sempre foi um chamado para os que estavam à margem: mulheres, dissidentes, corpos livres e saberes subterrâneos.” Soraya Mariani
📣Organizar ou Participar em círculos de Mulheres.
📣Assinar petições: https://www.amnistia.pt/peticao/acesso-pleno-ivg/
📣Participar e/ou organizar manifestações ou protestos localmente:
📣Apoiar o trabalho e a arte de outras mulheres
📣Dedicar nem que seja uma pequeníssima parte dos teus rendimentos a apoiar as causas em que acreditas.
⭕ Se sentires que estar em círculo é para ti, vem ocupar o teu lugar. Podes saber tudo sobre o meu próximo círculo online aqui e inscreveres-te. Menciona o código PARTEIRA no checkout para usufruires de um desconto exclusivo.
https://subscribepage.io/hecateemmim
Inspiração para saber mais sobre Sagrado Feminino e Ecofeminismo como ferramentas de Resistência e Ativismo em Portugal:
Joana Vitória Martins https://www.instagram.com/a.mulherquetrabalhanobosque?utm_source=ig_web_button_share_sheet&igsh=MXVjNDRvMTRxeTVtcw==
Iris Lican Garcia https://www.instagram.com/irislicangarcia?utm_source=ig_web_button_share_sheet&igsh=MXZ6OGgyb2l5Y3pyYw==
Ligia Morais. https://www.instagram.com/ligiamorais.amamentacao?utm_source=ig_web_button_share_sheet&igsh=N2c1NWU0OGVkZG1n
Carolina Mandragora https://www.instagram.com/carolinamandragora?utm_source=ig_web_button_share_sheet&igsh=ZHlncnVyd2lrNGM4
Francisca de Magalhães Barros https://www.instagram.com/franciscadembarros?utm_source=ig_web_button_share_sheet&igsh=aTM3NWJ1ZDRsYzNn
Paula Cosme Pinto https://www.instagram.com/paulacosmepinto?utm_source=ig_web_button_share_sheet&igsh=anF3Nmx5eHh1Nnkz
Referências citadas no meu artigo:
- Goddesses in Older Women: Archetypes in Women over Fifty
* tradução feita por mim, qualquer erro de interpretação é da minha responsabilidade, notas entre parênteses minhas também
- Relatório da Amnistia Internacional sobre IVG em Portugal: https://www.amnistia.pt/relatorio-ivg-portugal/
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Em Irmandade. hoje e sempre,
Sandrinha